segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Educação vem de casa?

A chegada de um ou mais filhos faz darmos um giro de 180 graus, nossa vida muda, prioridades, anseios, rotina e assim vai, sentimentos estes que já falamos aqui no blog. Junto com essas mudanças se potencializam mitos, medos e idealizações que vamos criando ao longo das nossas vidas em relação à maternidade.
Temos o mito de que nossa família deve ser perfeita, nossos filhos alegres e felizes, não podem ser irritados e nem tristes, devemos ter um amor incondicional e que eles não podem sofrer nenhum trauma ou dificuldade. Temos a tendência de pensar, “meu filho terá tudo aquilo que não tive”, “Ele será médico”, “ela bailarina”, “terá muitos amigos”,  etc,. Me diz aí, e se eles não forem nada disso??? E quando vier a raiva e os possíveis e muitas vezes importantes desafios/dificuldades da vida???
Hoje, com as diversas mudanças sociais que sofremos nas últimas décadas, como por exemplo, a ascensão da mulher no mercado de trabalho e as flexibilidades dos papéis paternais, faz com que os pais fiquem inseguros de como educar. Antigamente, se priorizava uma educação rígida e autoritária. Atualmente, chegam ao consultório pais desesperados por saber “Como educar???”: “dou tudo para ele” “ele não sabe o que passei”, “a vida dele é fácil”, são pais que por não conseguir estar perto dos filhos na maior parte do tempo, acham que quando estão juntos eles não podem ter frustrações, ou seja, acabam preenchendo a ausência com presentes, comidas que a criança deseja, entre outras coisas que tornam a criança com dificuldades de lidar com o mundo lá fora e muitas vezes reagindo com agressividade frente as situações.
Então, qualquer dificuldade ou atitude fora do script faz com que os mitos e as inseguranças pessoais dos pais venham à tona e gerem ansiedades e dificuldades para os aspirantes a cidadãos. Ressalvo a importância de enxergamos nossos filhos como pessoas individualizadas, únicas e singulares, portanto diferente dos pais e com direito de viver a vida espontaneamente. Destaco isso, pois muitas vezes quando não conseguimos ver nossos filhos diferentes de nós, tentamos fazer eles projetos onde podem encaixar-se para corresponder as nossas expectativas.
No consultório chegam muitos pais reclamando da agressividade dos pequenos e depositando nestes a necessidade da mudança. Então, convido vocês a pensarmos juntos, é esse o caminho? Os pais não são os primeiros relacionamentos dos filhos nesse mundão louco que vivemos? Não são os pais que passam as formas de ação no mundo? Agressividade e carinho começam a ser desenvolvidos em casa e a liberdade de expressão positiva não é algo estimulado pela nossa cultura, portanto, comunicar aos filhos seus sentimentos, explicar os “porque´s”, oportunizar espaço para expressão dos sentimentos, autoresponsabilizar-se  por seus sentimentos e ações contribui para o desenvolvimento emocional deles. Desta forma, a comunicação, interação, habilidades que as crianças realizam vem da relação pais-filhos. Portanto, queridos pais que se sentem perdidos ou incapazes, vocês são capazes sim, mas precisam dar espaço para seus filhos se expressarem, quando falo de expressão não falo só de sentimentos e comunicações positivas, falo da raiva, do medo, do silêncio, dos problemas, etc. 
Pais que “fazem tudo” por seus filhos podem prejudicar o desenvolvimento da capacidade de autonomia, assertividade, e assim, gerando inseguranças, falta de autoestima.  Ou então, que focam muito nos erros, podendo fazer com que os pequenos não desenvolvam a capacidade de resolução de problemas ou tolerância à frustração. Essas situações citadas apontam para possibilidades das relações pais-filhos, claro que não vai ser exatamente assim, mas o que estou levantando é para escutarmos nossos filhos e compreendermos que eles são seres únicos com capacidades emocionais a serem desenvolvidas. Precisamos estimular que eles “vivam” e lembrá-los que vocês estarão  aqui,  disponíveis para estimulá-los e ajudá-los a se desenvolverem da forma que eles desejarem Ser.

Joanna Leusin – Psicóloga. Especializanda em terapia sistêmica familiar, casal e individual. Trabalha com grupos. Atua como psicoterapeuta clínica e colaboradora de pesquisa com famílias. Contato: joannaleusin@hotmail.com

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