quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A necessidade de nomear

Dia desses uma das gêmeas teve seu padrão de sono totalmente alterado durante uma semana. Justamente a que dormia melhor, para meu desespero e das babá claro.
Minha pequena não trocou a noite pelo dia, ela simplesmente não dormia e estava irritadiça, algo que não condizia com sua personalidade tranquila, e assim foram uns 10 dias. A mamãe aqui desesperada já não sabia mais o que poderia ser, já tinha ligado para o pediatra, levado na emergência do hospital, todos achando que eram os dentinhos querendo dar as caras, enfim o fato é que passou e agora que não estou mais no olho do furacão me dei conta de que passamos pela fase do estranhamento como costumamos chamar na psicologia, ou crise do oitavo mês como alguns vêm chamando (nomenclatura que não me agrada nem um pouco).
Depois que me dei conta, fui conversar com uma amiga também psicóloga e ambas chegamos a uma conclusão: a necessidade que temos de nomear as coisas pelas quais passamos e/ou estamos passando.
Confesso que agora que sei o que houve com minha filha, me sinto muito mais tranquila e preparada caso a mana também apresente essas alterações de comportamento. Durante os dias que o sono estava totalmente irregular, e eu não sabia o que estava acontecendo, me via perdida e com receio de que pudesse ser algo mais grave, afinal estamos falando de um bebê que não fala e depende da mãe para interpretar seus sinais, sua linguagem corporal. 
Mas porque afinal me vi tão mais tranquila depois de conseguir finalmente nomear o que aconteceu? Porque eu sou humana como qualquer outra pessoa, como qualquer outra mãe. 
Hoje vivemos numa sociedade que busca por padrões de normalidade na verdade inexistentes. Cada pessoa possui suas características, preferências, diferenças que a definem como o ser que é, que a torna única. Entretanto, mesmo com tantas diferenças estamos sempre em busca de algo que nos torne iguais a tantos outros. Saber que não se é o único a ter enfrentado alguma dificuldade ou ter alguma condição específica de saúde, baixa a ansiedade, faz com que se veja a luz no final do túnel, nos transmite uma sensação de igualdade perante aos outros. 
Quantas crianças não são rotuladas, principalmente ao ingressarem na vida escolar, e passam a viver através daquela condição que lhes foi imposta? Um exemplo disso é o aumento constante de diagnósticos de TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) e prescrições de Ritalina. Não, não estou condenando os fármacos e nem dizendo que diagnósticos não são necessários, mesmo porque em alguns casos eles os são sim. O que quero dizer é: será que essas crianças têm mesmo TDAH ou o que lhes falta é um ensino diferenciado, alguém que sente com essa criança, com calma e lhe transmita o conteúdo de uma outra maneira? Eu mesma, tenho uma dificuldade danada para entender economia mas me pede para falar de infância, aí a coisa muda. 
Ok, não vamos muito longe na vida, vou dar outro exemplo. Como alguns sabem, as gêmeas nasceram prematuras, mas é um fato que passou e não existem motivos para ficar falando disso. Na época acabei ingressando em diversos grupos de mães no Facebook, alguns deles abordando prematuridade. Muitas vezes esses espaços são ótimos para os desabafos de nós mães cansadas e a ponto de explodir com essa nova rotina, mas percebo que algumas mães acabam rotulando seu bebês mesmo quando isso não se faz necessário. Se o filho ficava gripado, algo absolutamente normal para qualquer criança, a mãe terminava escrevendo "pobre do meu prematurinho". Me pergunto: até quando essa criança vai ser nomeada assim? Até quando ela vai ser tratada dessa forma? Sim, alguns casos são bem graves e demandam muito, mas muito cuidado por um longo tempo, mas estou falando de um bebê que estava bem. 
Poderia ficar aqui escrevendo milhares de exemplos, de como uma condição física ou psicológica pode acabar se tornando o cartão de visita de uma pessoa "Esse é o fulano. Ele tem autismo" ao invés de "Esse é o fulano e ele adora quebra cabeça, quer brincar com ele?". 
Ter um diagnóstico em mãos ou nomear uma situação, traz sim mais alívio, e é um ponto de partida para possíveis e necessárias intervenções, mas esse não deve ser o foco. Não devemos viver e/ou ser a doença. Eu mesma me senti mais tranquila quando percebi o que havia acontecido com uma das gêmeas, mas passou. Tudo passa. Pronta para a próxima. 

3 comentários:

  1. Perfeito Andressa!!! Sobre ser prematuro... Os pais devem pensar ELE FOI... Ele não é mais... Nasceu assim, mas não continuará... O Filhotão, nasceu com 35 semanas e seis dias (haha só para não dizer 36), prematuro, mas no auge dos meus 16 anos não dei muita importância pra isso! Sabia que ele tinha sido um bebê prematuro, mas... 16 anos tu não tem noção do que isso pode ser. Posteriormente fazendo meu TCC li que um bebê para ser considerado prematuro tem que nascer abaixo das 36 semanas e abaixo de 2300 kg, necessariamente com os dois requisitos, o Filhotão nasceu com 35 sem e 6 dias, mas nasceu com 2.750, por isso não foi para incubadora, era um bebe grande!!! E saudável... Estou amando o Blog!!!

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    1. Oi Edna, que bom que estás gostando, sabes que esse espaço é nosso e é construído com o aporte de muitos profissionais, inclusive tu! E sim, devemos ter muito cuidados com essas nomeações e rotulações. A questão da idade corrigida das meninas é algo que ainda terei que fazer por mais um tempo, mas não me fixo a isso, e é aí que está a diferença! bjs

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  2. Muito legal, Dessa! Parabéns pelo blog! Beijos

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