quinta-feira, 28 de agosto de 2014

De lagarta a borboleta: a transformação através do afeto

Durante dois anos trabalhei em uma escola de educação infantil e isso só reforçou o que eu já sabia: a importância de um professor na formação de uma criança.
Infelizmente muitas famílias se abstêm de participar desse momento da vida de seus filhos, época em que relações se criam, evoluções acontecem diariamente, e muito da personalidade desses pacotinhos toma forma. Sempre defendi que família e escola devem andar de mãos dadas como meio de estabelecer-se uma relação saudável entre todos. Quem ganha com isso? A criança, a família, a escola e a sociedade, que terá um cidadão mais capaz para a vida e mais seguro de suas decisões.
O texto de hoje mostra como uma professora, na época formanda de pedagogia, conseguiu com muita dedicação e afeto transformar uma lagartinha em uma linda borboleta, capaz de alçar vôos bem mais altos do que muitos acharam ser possível. Imaginem o quanto mais essa borboleta poderia ter voado antes se a família tivesse dado um suporte mais amplo trabalhado em conjunto com a escola.
DE LAGARTA A BORBOLETA - A TRANSFORMAÇÃO ATRAVÉS DO AFETO
Final de graduação tem o temido TCC e na minha não foi diferente. O que escrever, sobre o que pesquisar, tantas coisas importantes vistas ao longo de quatro anos, eis o momento de mostrar o que se aprendeu.
Meu tema inicial: relação família escola; minha orientadora disse que era um assunto importante de ser abordado, mas sabia que eu devia esperar o momento certo para escrever sobre algum assunto diferente.
Desse jeito iniciei o estagio obrigatório sem tema para meu TCC. Recebi uma turminha do barulho, um grupo de doze crianças de três anos, com olhinhos brilhantes, ansiosos, e escrevendo estas linhas me remeto aquele março de 2008. Foi quando vi minha lagartinha, naquele momento entendi por que havia escolhido a pedagogia, queria ajudar aquele menino que destoava dos demais, ele era uma criança grande, não coordenava muito bem seu corpo, a cada dois ou três passos caia, alimentar-se era complicado pois tinha dificuldade de fazer o movimento de pinça, o controle de esfíncteres ainda em construção, sua fala estava atrasada já que ele só emitia sons sem palavras definidas.
Assim surgia meu TCC. Percebi que podia incentivar o desenvolvimento daquele menino, então fui em busca de por que ele destoava de sua irmã gêmea, que tinha seu desenvolvimento motor bem adequado para a faixa etária. Chamou-me a atenção um dia, fazendo uma atividade de lógico matemático, que consistia em testar os atributos de cores, quando ele fez a relação mais rapidamente que os demais, que ainda estavam encontrando resposta para uma questão difícil para eles. Deixei para ver se alguém ousaria tentar ao menos, nos objetos havia uma peça vermelha e o local para colocar as cores sorteadas só tinha amarelo, verde e laranja. Ele pegou a peça vermelha que tinha e colocou entre o amarelo e o laranja, isso mostrou que ele tinha conhecimento das cores, enquanto os demais ficaram dizendo a ele que estava errado. Intervi no momento e expliquei aos colegas o raciocínio dele, neste exato momento ganhei a confiança dele.
Para a escrita do TCC, busquei histórico da gestação, do parto e do crescimento e desenvolvimento até ali. Salvo o fato de os bebês terem nascido com peso de gestação única, ela com 3kg e ele com 2,900kg, não havia nenhum indicativo de algum problema. A família percebia a diferença mas não permitiu maior interação, e infelizmente muitas vezes se omitiu a qualquer investida ou dicas para que ele pudesse ter os avanços que tinha na escola também em casa.
O tempo foi passando, cada palavra pronunciada com clareza era comemorada, cada passo dado sem um tombo era incentivado, cada alimento levado a boca com destreza sem bagunça foi elogiado, e assim com carinho, e um olhar observador, sempre guiado pela minha orientadora, fez com que minha lagarta, após um tempo dentro de seu casulo se tornasse uma linda borboleta, que ao final do ano, caminhava a passos largos, entoava um vozeirão pelos corredores da escola chamando seus colegas pelo nome, recortava papéis com tesoura sem auxílio e o mais significativo para ele, ia ao banheiro e fazia suas necessidades sem ajuda, sem uma cara feia porque havia escapado um cocô, neste instante ele alçou vôo e foi curtir tudo que seus amigos faziam.
Foi então que percebi que o mesmo que fiz por meu aluno, minha orientadora fez por mim, que naquele momento me tornava uma borboleta, ops uma pedagoga. Agradeço por ter encontrado esta lagartinha linda em minha vida, pois assim aprendi que o melhor de tudo na educação é um olhar observador.
Edna Aresço Paiva Pedagoga, formada pela PUCRS, mãe de dois guris, apaixonada por tudo que faz.

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