quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A primeira mamada

Tenho certeza que muitas mamães aí nunca pararam para pensar o que deve passar pela cabeça do bebê no instante em que ele nasce e se vê num mundo novo onde a única pessoa que ele "conhece" é a mãe. Será esse então o melhor momento para a primeira mamada?
Vamos ver o que a Eleonor nos diz sobre isso.
A PRIMEIRA MAMADA
Muito bem, seu bebê nasceu e está junto com você. Você está olhando para ele (muito provavelmente chorando) e ele está olhando para você (muito provavelmente tentando se acostumar com essa novidade chamada luz). E agora, o que fazer primeiro?!
Fácil. SEGURE! Você vai receber seu bebê enrolado feito um charuto, só com a carinha de fora. Isso é necessário porque os bebês nascem molhados e, se não forem rapidamente secados e aquecidos, perdem calor muito depressa. No entanto, coisas cilíndricas rolam. De modo que, repetindo, segure! É quase certo que seu pediatra vai segurar o bebê também e cuidar para não acontecer nenhum acidente, mas é o seu bebê, certo? Então, passe seu braço bem firme em torno do pacotinho pelo qual você, a esta altura, já se apaixonou. Isso toma mais ou menos, deixe ver, uns dois segundos. 
O que fazer em seguida? É simples também: converse com seu bebê! Se vocês já tiverem uma música especial, cante para ele, porque, em todo esse mundo subitamente desconhecido, sua voz é algo que ele conhece. Se ele estiver chorando, provavelmente vai parar ao ouvir você. Se já estiver quietinho, observe com quanta atenção ele escuta. Se papai ou vovó estiverem junto, e se estavam acostumados a falar com a barriga, é o momento de conversar também. Aliás, é um momento mágico e inesquecível... Porque é a primeira vez que vocês estão realmente vendo um ao outro!
Passados estes primeiros minutos de olho no olho (em suas lembranças, vão parecer HORAS!), chega o momento em que você vai pedir – o pediatra vai sugerir – alguém vai dizer que está na hora de colocar o bebê ao seio para mamar. E é aqui que vamos dar uma pausa para explicar algumas coisas.
A primeira dessas coisas é que seu bebê é um filhote e, como tal, nasce com reflexos que permitem sua sobrevivência. Um bebê precisa sugar para se alimentar e sobreviver, mas nasce sem saber disso. Solução da Mamãe Natureza para a inexperiência do filhote: fazer o bebê sugar tudo o que proporcionar o estímulo correto. São duas coisas principais que desencadeiam o reflexo de sucção. A primeira, obviamente, é ter algo para sugar dentro da boca. Bico do seio, ponta da roupa, chupeta, dedo – qualquer coisa que estiver dentro da boca vai ser, por instinto, sugada. O segundo grande estímulo é o toque na parte externa das bochechas: o bebê vai se voltar imediatamente para o lado do toque, de boquinha aberta, pronto para sugar. Mesmo quando ele estiver de barriguinha cheia e satisfeito, vai fazer isso. É automático. Por isso, quando alguém pega um bebê de dias no colo e o encosta ao seu corpo (ou seja, encosta a bochecha do bebê ao seu corpo), o bebê vira e tenta mamar. Consequência imediata: “Olha, mamãe, ele ainda está com fome, acho que não mamou o suficiente! Coloca mais um pouco no seio!”. A mamãe coloca no seio e o bebê fica ali no pega-e-solta, porque o instinto manda sugar, mas a barriga está cheia e avisa que não precisa de mais nada... Se se tratar de uma mamãe de primeira viagem, isso é sinônimo de preocupação certa. Serão horas de ansiedade sobre não saber amamentar, sobre o bebê que está com fome e não pega o seio, sempre terminando na conhecida máxima do “eu não tenho leeeeite, tragam uma mamadeira depressa porque o meu filho está com foooome!”. Calma, mamãe. Calma! Não está com fome, não. Tanto não está com fome que está aí quietinho, ou, se não estiver quietinho, é porque já se incomodou de tanto ser chacoalhado... Basta tirar esta gola de tiptop, fralda ou qualquer coisa que esteja encostando na bochecha dele, e ele vai dormir tranquilamente.
Voltando ao assunto “bebê com minutos de vida”, eu disse lá em cima que alguém vai sugerir colocar seu bebê para mamar logo depois de nascer. É ótimo, inicia o vínculo mãe-bebê, inicia a amamentação e tudo o mais. Muitos bebês vão localizar o bico do seio e nhoct, abocanham na hora, para a felicidade geral da plateia. Outros bebês vão se recusar a fazer isso e fim, muitas vezes iniciando o famoso “aaaaah, meu nenê não pega o seeeeeio, não vai mamar nunca maaaaais, eu não tenho leeeeeite!!!” Na verdade, eu devia escrever esta frase em maiúsculas bem grandes, para dar uma ideia melhor do tamanho do stress da mãe.
Portanto, vamos olhar esse momento pelo lado do BEBÊ. Até agora, ele estava morando num lugar quieto, quentinho, escuro e tranquilo. Não precisava comer, tudo o que precisava vinha pelo cordão umbilical. Se sugava alguma coisa, era o dedo, de farra. De repente e sem a menor explicação, seu mundo vira de pernas para o ar. O “lugar tranquilo” dá o maior aperto nele e o espreme para fora por um tunelzinho muito estreito (no parto normal) ou por um buraco que não é muita coisa maior (na cesárea). Ele nunca foi tão apertado assim antes. Daí ele se vê num lugar frio, cheio de luz, barulhento, com um monte de gente falando. Aí ele chora (na real, acho que muitos choram é de susto, quando nascem) e começa a respirar – respirar?! O que é isso que estou fazendo agora?! O que é este barulho enorme que parece sair de mim?! Numa sala de parto, a pessoa mais espantada de todas é, com absoluta certeza, o nenê! Agora me diga, mamãe: tendo acabado de passar por um stress destes, VOCÊ teria fome? Eu não teria! Não ia nem PENSAR em comida, principalmente porque a placenta estava me alimentando perfeitamente até cinco minutos atrás!
Conclusão do dia: se colocarem seu bebê de dez minutos de vida para mamar e ele mamar, é instinto e não fome, porque ele nem teve tempo de saber o que é fome ainda! Se NÃO mamar, está tudo certo! No lugar dele, você não mamaria também...
Até daqui a duas semanas, quando continuaremos este assunto!
Eleonor Hertzog é mãe da Anelise, do Augusto e do Alexandre e é vovó coruja do Arthur. Pediatra, já atuou em uma Unidade Neonatal e em Unidades de Saúde. Atualmente atende em consultório e nas horas vagas é escritora.

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