quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A gravidez nada poética

Nem tudo são flores na gravidez. Estamos acostumados a sempre ver fotos de gestantes sorrindo, uma família feliz se formando, um período repleto de magia e blablabla, mas não é bem assim. Sinto informar que não.
E muitas mulheres se culpam por não sentirem todo esse encantamento achando que elas é que tem algum problema. Mamães, vocês não estão sozinhas! E é sobre essa falta de poesia que a Joanna nos fala hoje.
ESTOU GRÁVIDA LOGO ESTOU MARAVILHOSA! SERÁ?
A gravidez é o sonho da maioria das mulheres né? Parece que a vida perde o sentido se não passarmos por essa experiência e não sentirmos a “grandeza” de ser mãe. Acreditamos que a gravidez será mágica, poética e muito alegre. Na pratica, não é bem assim para todas, tem gestações e gestações. Assim, como somos diferentes um do outro, o período gestacional é diferente para cada mulher. Portanto, manter as expectativas que viveremos e/ou deveríamos viver um momento mágico, pode causar muito sofrimento e culpa para futuras mamães.
Durante um atendimento numa terapia de casal, escutei: “Fiquei gorda, não dormia direito, sentia enjoo, não conseguia me olhar no espelho e não queria ver a cara do meu marido por 4 meses”. Cadê a poesia? Bom mamães, essa é uma fase que causa instabilidade emocional e hormonal, sensibilidade e insegurança. Além de mexer diretamente com a nossa autoestima, pois nosso corpo muda, as roupas não são mais as mesmas e as atividades que fazíamos devem ser readaptadas visando um conforto físico e cuidado com a nossa saúde. Todas essas mudanças e instabilidades afetam nosso espelho, muitas mulheres relatam que se sentem lindas e poderosas, porém existem as que se sentem ao contrário. O corpo passa por uma metamorfose e nossos pensamentos e sentimentos também. Sensações essas que podem se estender por meses. Mas calma, não é o fim do mundo, a grande diferença será em como iremos lidar e como as pessoas em nossa volta (principalmente, quando as mulheres tem um companheiro(a) ao lado) nos ajudarão a enfrentar essas turbulências emocionais. No caso que citei acima, ela se afastou do marido, não só sexualmente, ela tinha “nojo” dele, causando discussões e brigas entre o casal.
Transformar a espera pelo filho numa experiência negativa não é o que as mulheres querem. Portanto, aceitar e saber que fazem parte os sintomas de ansiedade, variação de humor, enjoos, indisponibilidade social, entre outros possíveis, são atitudes importantes para viver tranquilamente este período.
Nesta fase, principalmente quando é nosso primeiro filho, precisamos lidar com as nossas inseguranças, medos e desafios que estão por vir. Sim, filho muda nossas vidas, nos faz repensar e reestruturar nosso hábitos, valores, investimentos, etc., além disso, tem nossas questões emocionais, ligadas aos pensamentos, experiências e expectativas que um filho pode causar, como por exemplo: “vou conseguir ser mãe?”, “quero ser uma mãe diferente da que eu tive”, “nunca serei igual a minha mãe, ela é uma boa mãe”, “não sou afetuosa, não saberei dar carinho”, “sou muito individualista”, “não vou conseguir da conta de tudo”, “meu companheiro(a) não vai sentir mais atração por mim”, “meu corpo nunca mais será o mesmo”, “não vou ter tempo para fazer as coisas que gosto", entre outros pensamentos que alimentam nossa insegurança. Ressalvo que, ao alimentarmos nossos medos, podemos nos sentir despreparadas e incapazes de sermos mães, podendo desenvolver depressão durante ou após o parto. Situação essa nada incomum entre as mulheres, porém que podem ser prevenidas durante a gestação, desde a notícia da gravidez, buscando lidar com os dilemas na vida da mulher moderna. Digo moderna, pois muitas mulheres precisam lidar com as dificuldades de alinhar trabalho e gravidez. Algumas, não conseguem exercer suas atividades profissionais durante toda gestação, precisam ausentar-se após o parto, necessitam de ajuda das pessoas para lidar com as demandas domésticas e podem se sentir desconfortáveis devido sua situação física e emocional afetando suas atividades diárias.
Portanto, nesse momento a parceria com o pai e/ou familiares que estão à volta, buscando conversar e entender que sim, a insegurança faz parte, mas que vamos enfrentar os desafios da Mothernidade. Afinal, junto com esses desafios vêm as aventuras e descobertas de que posso ser uma boa mãe ou posso não ser tão boa, mas que estarei presente tentando dar o seu melhor. O companheiro (a), a família e/ou amigos enfrentando juntos essa gangorra de sentimentos, podem vir a se sentir ainda mais unidos.
Mulheres que se identificaram com esse texto, a gravidez dependerá da forma que iremos enxergá-la e nos relacionarmos com ela. As turbulências hormonais, físicas e emocionais precisam ser compreendidas pela futura mãe e seus familiares e aceitar que o período será singular, não comparando e esperando algo que outras mulheres passaram.
Caso, alguma mamãe esteja com dificuldade ou conhece alguma mulher que está em sofrimento com esse tsunami de emoções, seria interessante buscar uma psicoterapia para entender e lidar com esse período, muitas vezes a terapia de casal (como no caso que citei anteriormente) pode ser uma boa alternativa para os futuros papais e mamães entenderem seus medos e expectativas e aprenderem a lidar com estes.
Joanna Leusin – Psicóloga. Especializanda em terapia sistêmica familiar, casal e individual. Trabalha com grupos. Atua como psicoterapeuta clínica e colaboradora de pesquisa com famílias. Contato: joannaleusin@hotmail.com

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